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O Papa Francisco na América Latina

Como fez bem a todos nós, à América Latina e ao mundo a visita apostólica do primeiro papa latino-mericano ao nosso Continente. Graças a Deus, voltou o profetismo, a opção pelos pobres, a mensagem de libertação, a Doutrina Social da Igreja. Com coragem e sem perder a ternura, o Papa Francisco tocou em muitas feridas, dentre elas, a “ditadura sutil do capitalismo, o monopólio dos Meios de Comunicação Social, a economia sem coração, a necessidade de a América Latina ser uma “grande pátria”.

O Sucessor de Pedro nos estimulou a respeitar os cinco pilares da dignidade humana e da sociedade: Primeiro: nenhuma família sem casa. Segundo: nenhum camponês sem terra. Terceiro: nenhum trabalhador sem direitos. Quarto: nenhum povo sem soberania. Quinto: nenhuma pessoa sem dignidade. Eis os horizontes de um mundo diferente e melhor. O papa referiu-se aos três “t”: o trabalho, o teto, a terra.

Estes três “t”, simbolizam a crise atual do desemprego, da falta de moradia, da depredação do meio ambiente. É preciso devolver aos pobres o que lhe pertence, unir os povos no caminho da justiça e da paz usando os braços do diálogo e da proximidade.

Economia, diz o Papa não deve ser mecanismo de acumulação sustentada pela “lógica do lucro”. Este sistema ninguém aguenta mais porque traz exclusão, insatisfação, tristeza e destruição da natureza. Economia é administração da casa comum. Quem crê na “globalização da solidariedade”, fará de tudo para diminuir as desigualdades sociais geradoras de violência, de alcoolismo, de drogas, de desestruturação da família. A economia fundamentada no lucro confia no dinheiro que é “esterco do diabo” como diziam os Santos Padres. Atrás de tudo está a idolatria do dinheiro, pior, o fedor do dinheiro, afirma.

Precisamos de mudança, nos bairros, nas periferias, no campo, na cidade. Precisamos de mudança na ecologia. Sejamos, pois, semeadores de esperança com olhos fixos no Evangelho do reino que nos proporciona a coragem das mudanças das estruturas. Ninguém aguenta ver o trabalhador sem emprego, o camponês ameaçado, o indigena oprimido, a família sem teto e sem pão, o migrante perseguido, o jovem sem ideais e sem sentido da vida, a criança explorada, a mãe que perdeu o filho num tiroteio ou bala perdida, a adolescente que se prostitui para sustentar a casa.

Isso tudo nos comove e faz chorar. Não bastam as teorias abstratas nem a indignação elegante. A realidade do povo nos comove e faz chorar. Digamos “não” às novas formas do colonialismo. O Continente latino-americano tem obrigação de ser o continente do amor e da esperança, porque é o continente mais cristão da atualidade. O Papa também pediu perdão pelos erros e pecados dos filhos da Igreja, especialmente na guerra do Paraguai.

Em síntese, a visita do Sucessor de Pedro nos três países mais pobres da América Latina, fala por si só, porque foi um retiro espiritual, um reavivamento da Doutrina Social da Igreja, um eco do profetismo, uma confirmação da opção pelos pobres, um apelo à esperança e um recado missionário: “A fé não solidária é mentirosa. Ir à missa sem se preocupar com a periferia, sem ter coração solidário, é uma fé doente ou morta”, disse o Papa.

Dirigindo-se aos jovens o Santo Padre disse que a amizade é um dos maiores presentes que uma pessoa pode receber e oferecer. É difícil viver sem amigos, porque o amigo marca presença, permanece ao lado nas horas difíceis, diz o que pensa, não deixa o outro caído por terra. É assim que Jesus faz conosco.

Estreitemos nossa amizade com Jesus, aconselha o Papa. A oração, a Palavra, a cruz, o amor fraterno são chances para aprofundar a amizade com Jesus de Nazaré. Ele é o tesouro, a felicidade, a prioridade da vida. Que honra a gente ter Jesus como amigo. Se estás ferido, Jesus é o remédio; se estás perdido, ele é o caminho; se estás fraco, ele é a força; se estás nas trevas, ele é a luz. Vale a pena conhecer Jesus profundamente, amá-lo ardentemente e segui-lo fielmente.

Orlando Brandes

Beatificação de Dom Romero

Dom Romero (1917 – 1980), Arcebispo de São Salvador, é mais um mártir da fé e do amor aos pobres. Foi fuzilado no dia 24 de março de 1980 durante a celebração da missa. Foi beatificado recentemente no dia 23 de maio de 2015. Na mensagem de beatificação, o Papa Francisco escreveu que Dom Romero foi um “construtor da paz com a força do amor”. Ainda mais, precisamos agradecer a Deus porque concedeu ao Bispo mártir, a capacidade de ver e de ouvir o sofrimento do povo, afirma o Papa Francisco.

Em Dom Romero vemos o Bom Pastor que vê a opressão, ouve os clamores do povo e opta pelos mais pobres, sempre fiel ao Evangelho, em comunhão com a Igreja e a favor da justiça. Deu o exemplo dos melhores filhos da Igreja. Nele havia bom senso, reflexão, respeito pela vida. Não agiu por ideologia nenhuma, mas por uma profunda conversão aos pobres à luz de Jesus de Nazaré.

Com coração de pai ocupou-se com as maiorias pobres de seu País. Sua voz ressoa ainda hoje pedindo: “transformem as armas em foices para o trabalho”. Aconselhava também que “é preciso renunciar à violência da espada, do ódio e viver a violência do amor que consiste em superar o próprio egoísmo”.

O cardeal Amato, na homilia da missa de beatificação de Dom Romero disse: “Eis um sacerdote bom, um bispo sábio, um mártir corajoso”. Seu martírio não foi improvisado, teve uma longa duração, pois desde estudante de teologia fez o “voto de entregar sua vida a Deus”. Sofreu ameaças, atentados, perseguições, humilhações até que uma bala traiçoeira o atingiu e seu sangue se misturou com o sangue do redentor.

Os quatro amores de Dom Romero eram: a Eucaristia, a Igreja, a Virgem e o povo. Repetia sempre esta oração: “Oh Deus,Tu és o Tudo, eu sou o nada. Mas, teu amor quer que eu seja muito”. Com tal força mística Dom Romero pode fazer muito com o “tudo de Deus e o seu nada”, mesmo tendo um temperamento tímido, reservado, moderado e prudente.

Convidava seus perseguidores à conversão, ao bem e garantia-lhes o seu perdão. Dom Romero não é símbolo de divisão e sim de paz, concórdia, reconciliação e fraternidade. Escreveu: “julguei um dever de consciência colocar-me com firmeza na defesa da minha Igreja e do povo oprimido”. Sua opção pelos pobres não era ideológica, era evangélica. Convidava seus filhos divididos a se converterem ao amor, ao perdão, à concórdia. O amor pastoral infundia-lhe uma força extraordinária.

Em honra a Dom Romero, as Nações Unidas proclamaram o dia de sua morte (24 de março) como “dia do direito à verdade”. No dia 2 de fevereiro de 1980 recebeu o diploma honorais causa, pela Universidade de Lovaina na Bélgica. Ele não era teólogo, nem intelectual, nem reformador, muito menos político. Era homem de Deus. Prevendo seu fim trágico escreveu: “Deus sempre assistiu os mártires e se for necessário, também eu que o sinto muito próximo, ofereço-lhe o meu último suspiro”.

Deus é admirável nos seus santos. Dom Romero era um bispo de tradição tridentina, teve dificuldades em entender a Conferência de Medellin, sempre fiel defensor do Papa e do magistério. Era severo consigo, introvertido, de família muito pobre, devoto do Coração de Jesus. Trabalhou com a Legião de Maria, os Cursilhos, a Ação Acatólica, a Guarda do Santíssimo Sacramento, a Terceira Ordem Franciscana.

A fidelidade à realidade sofrida do povo fez Dom Romero converter-se aos pobres até ao martírio. Durante seu ministério episcopal, 30 sacerdotes foram assassinados, igualmente vários catequistas. Fiéis leigos foram afastados, expulsos, torturados e muitos até hoje desaparecidos.

Deus nos conceda a força e graça para edificar o reino de Deus e uma ordem social mais digna. Que germine a semente do martírio de Dom Romero. Para nós hoje é um forte sinal dos tempos usufruir as duas conversões de Dom Romero. A primeira e a sua conversão do conservadorismo tridentino para a aceitação e aplicação do Concílio Vaticano Segundo.  A segunda, é a sua conversão pastoral, conversão profética, conversão teológica, conversão ao povo injustiçado. Que bom que um filho do Concílio Vaticano II, um Arcebispo latino-americano, um defensor da teologia da libertação, foi beatificado. Certamente não será o último. Esperamos a vez de Dom Helder Câmara, de Dom Luciano Mendes de Almeida, como também a canonização de Irmã Dulce.

Orlando Brandes

A Santíssima Trindade e os Grupos Bíblicos

Dizer Trindade é dizer comunidade, família, equipe, grupo. Ser imagem da Santíssima Trindade é ser Igreja comunidade de comunidades, Igreja Grupo Bíblico de Reflexão, Igreja Cebs, Igreja nas casas, portanto, Igreja doméstica. A Trindade Santa é a melhor comunidade. Assim a Igreja-Comunidade, é o melhor louvor à Trindade Santa. Formamos comunidades em honra e louvor à Santíssima Trindade.

O homem é um animal social e familiar. Não lhe é estranho viver em comunidade, a exemplo das Pessoas Divinas. O cristianismo tem a marca registrada da Trindade que é a comunhão e participação. Ser comunidade, ser grupo, ser família, ser equipe é um jeito trinitário de viver.

A experiência de comunidades eclesiais acontece de modo especial na África, na Ásia e na America Latina. Diz o Arcebispo de Bombaim: “A Igreja na Ásia escolheu o método das comunidades como novo modo de ser Igreja. Isso foi um sucesso. Os leigos são mais conscientizados, a formação dos fiéis é permanente, o contato com a Palavra é constante, a ação caritativa aumentou, o ardor missionário cresceu”.

Realmente, os Grupos Bíblicos de Reflexão, as Comunidades Eclesiais de Base, as Pequenas Comunidades dão às pessoas oportunidade de mais comunicação, de novas amizades, de entreajuda fraterna, de consciência eclesial, de amadurecimento da fé e aumento da ação caritativa, transformadora e missionária. É preciso crê e investir neste jeito de ser Igreja.

Com os Grupos Bíblicos de Reflexão supera-se o anonimato, a indiferença, o individualismo, a apatia religiosa. Nestes grupos acontece a oração, a reflexão, a ação e a confraternização. Os Grupos são verdadeira catequese permanente, fato que ajuda as pessoas a se doarem e assumirem, tarefas e ministérios na Igreja e serem missionárias. Os grupos são sangue novo na paróquia. Quem tem visão e espiritualidade trinitária, acredita e participa dos Grupos Bíblicos de Reflexão.

Nós estamos em preparação do 14º Intereclesial das Cebs que se realizará em janeiro de 2018. Precisamos crescer na dimensão comunitária, profética, missionária e social da fé. As Comunidades Eclesiais de Base, os Grupos Bíblicos de Reflexão, as Pequenas Comunidades são experiências que nos levam a superar a sacramentalização e o devocionismo tão arraigados em nós. Jesus, ao formar o grupo dos Doze Apóstolos, colocou o alicerce da Igreja-Comunidade. Na Igreja Primitiva surgiram as pequenas comunidades. O método de evangelização de Paulo Apóstolo foi a criação de comunidades nas casas. Não faltam fundamentações bíblicas, eclesiais e pastorais a respeito da Igreja comunidade de comunidades.

Seria bom gravar em nossas mentes e corações que Grupo de Reflexão é lugar de evangelização, é escola de comunhão, é prática de transformação, é chance de conscientização, é experiência de comunhão, é incentivo para a missão. O mesmo acontece com outras formas e experiências comunitárias.

Temos Grupos Bíblicos de Reflexão nas periferias, nos edifícios, nos condomínios. As pessoas se encontram, dialogam, rezam, planejam ações solidárias e dão belíssimos testemunhos da ajuda ao próximo. Os grupos facilitam a setorização da paróquia, o entrosamento com os vizinhos, o conhecimento da fé, o engajamento na comunidade.

Temos, porém, um longo caminho a percorrer porque somos ensinados a ser cristomonistas, pentecostalistas, mariocêntricos, devotos dos santos, mas, esquecemos a Santíssima Trindade, como também as consequências e frutos de uma espiritualidade trinitária. Ser adorador da Trindade Santa implica em ter espírito comunitário, participar nas pequenas comunidades e grupos e ser Igreja comunidade de comunidades.

A fé na Santíssima Trindade tem incidência social. Onde há espiritualidade trinitária, não há lugar para a ditadura, a centralização, o individualismo. Em nome da Santíssima Trindade lutamos em favor da democracia, da família, da fraternidade, da inclusão, da globalização da solidariedade e da comunidade internacional. Viva a Santíssima Trindade e os Grupos Bíblicos de Reflexão.

Orlando Brandes

Pentecostes: Vem Espírito Santo

Sabemos preparar bem o Natal e a Páscoa. Pentecostes passa despercebido. É apenas um dia. Na verdade o Espírito Santo ainda contínua o “Deus desconhecido”. Há sinais e símbolos para facilitar a compreensão de Pentecostes: terremoto, vendaval, incêndio, barulho, entendimento entre as nações, língua e linguagem.

Alegremo-nos com o Pentecostes do pontificado do Papa Francisco que está rejuvenescendo a Igreja, transformando a sociedade, revitalizando a alegria do Evangelho, promovendo a “revolução da misericórdia”.

Na Igreja do Brasil, o Pentecostes de 2015 é marcado pelo Ano da Paz, pela Reforma Politica, pelo aumento do terço dos homens, pelos frutos do Ano da Vida Consagrada e pelo projeto “Igreja, comunidade de comunidades”. Em Pentecostes os apóstolos deixam o medo e enchem-se de desassombro, saem do Cenáculo e vão para as ruas, as casas, as nações. Os Atos dos Apóstolos são atos do Espirito Santo.

O Espírito Santo cura o que é doente, consola o aflito, enche o coração de luz, de alegria e de paz. Lava o que é sujo, faz a faxina do íntimo do ser humano, irriga o que é árido, aquece o que é frio, faz voltar o que se desviou e dobra as mentes e o corações resistentes, petrificados, teimosos.

Graças ao Espírito nós adquirimos uma psicologia de filhos, somos tomados de afeto filial para com o Pai, vibramos por Jesus, recuperamos o encantamento pela Palavra de Deus, adquirimos o sabor pelas coisas de Deus. O Espírito Santo concede a cada época o que mais convém para o bem da humanidade. Ele está presente em cada momento, em cada hora, é o “Espírito do agora”.

Tudo isso acontece porque Espírito significa energia, irrupção, movimento, moção interior, transformação, impulso que dilata os corações, abre as mentes, conduz a história, atua nas religiões e nas culturas, desce sobre os pagãos, renova a face da terra. Uma boa pneumatologia facilita o ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a abertura ao mundo, a criatividade missionária, o entusiasmo pelas ciências e artes. Enfim, o Espírito Santo é o patrocinador do homem, pneumatizador da matéria, organizador do caos, diretor da história universal, mentor dos profetas, advogado dos injustiçados.

Graças ao Espírito temos o progresso da compreensão do dogma, a atração pela Palavra de Deus, a evolução da teologia, a intensificação da mística, a irrupção de santos e santas na Igreja, a compreensão dos mistérios da fé, a expansão da Igreja.

Quem se deixa guiar pelo Espírito não se apoia só nos cálculos, controles, tradicionalismos, fechamentos, pois o espírito nos abre ao diálogo, ao pluralismo, à diversidade, à diferença, sem confundir nossa identidade. Tolerância, afabilidade, pluralidade, diferença,compaixão são coisas do Espírito que atua também fora dos limites da Igreja.

Graças à unção do Espirito o povo de Deus, em comunhão com o Magistério é infalível no crer. Precisamos enfocar em nossos dias este dom da infalibilidade “in credendo” (no crer). Percebemos que o povo tem o instinto, o faro, a percepção, o cuidado pelas coisas da fé. Quantos de nós aprendemos com o povo a amar os santos, a rezar o terço, a participar de procissões, a rezar pelos mortos etc. Sim o Espírito inspira de um lado a religiosidade popular e de outro lado a tradição da fé.

Desde já, peçamos ao Espírito Santo luzes, inspirações, e muita iluminação sobre todos e todas que participarão do Sínodo da Família em Roma no próximo mês de outubro. É o Espírito que no curso da história com providência admirável, está presente na evolução, renova a face da terra, suscita profetas, sábios e lideres. Não sufoquemos o Espírito com o fundamentalismo, o individualismo, o conservadorismo. Vem Espírito Santo, vem logo, vem depressa, vem com urgência.

Onde está o Espírito ali está a vida, a liberdade, a inspiração, a criatividade, o movimento. A verdade venha de onde vier, é obra do Espírito Santo. Os que aceitam e colocam em prática os sete dons do Espírito tornam-se pessoas humanamente maduras, cristãmente autênticas, eclesialmente missionárias, socialmente abertas, proféticas, criativas.

Sobre crianças, jovens, velhos, escravos, homens e mulheres, enfim sobre toda a carne desce e age o Espírito Santo, que consagra os pastores da Igreja para que ajudem o povo a carregar os fardos da vida. Vem Espírito Santo.

Orlando Brandes

As fontes da alegria

O Papa Francisco no convoca a testemunhar a “alegria do Evangelho” . Temos muitas razões para não desistirmos da alegria, mesmo experimentando o medo, as tragédias, o terrorismo que nos sufocam. A alegria vencerá porque Jesus ressuscitou. Esta é a maior alegria de todos os tempos e de todos os povos. Meditemos sobre as fontes da alegria.

A primeira fonte da alegria cristã é a fé no amor de Deus, a certeza pessoal de sermos eternamente e ternamente amados. Cada pessoa é objeto da infinita ternura do Pai. Fazer a experiência do amor de Deus é encontrar uma “torrente de alegria”. A sociedade multiplica ocasiões de prazer, mas, tem dificuldade de gerar alegria. O povo pobre que descobre o amor de Deus é portador das mais belas e espontâneas alegrias, diz o Papa Francisco. A alegria bebe da fonte do amor maior que Deus manifesta em Jesus Cristo.

A segunda fonte da alegria é o encontro vivo com Jesus de Nazaré, o Salvador. Ele nos dá sempre de novo a alegria de ser salvos. É a alegria que vem da experiência com a bondade, a misericórdia e paciência e a ternura de Jesus para com os pecadores, os pobres, os pequenos. Esta é a doce alegria do amor redentor, um verdadeiro “feixe de luz” em nosso caminho.

A terceira fonte de alegria é o Evangelho, a boa notícia que já na noite do Natal em Belém o anjo proclamou: “anuncio-vos uma grande alegria que é para todo o povo, nasceu para vós um Salvador” (cf. 2,10). Jesus ao pregar o Evangelho afirma que esta é a alegria completa (cf. Jo. 15,11). Ele mesmo exulta de alegria no Espirito Santo quando percebe que o Evangelho é acolhido pelos pequeninos (cf. Lc 10,21). Até o carcereiro e sua família entregaram-se à alegria porque foram evangelizados (cf. Atos 16,34). Converter-se e crer no Evangelho é fazer a experiência da alegria que ninguém pode tirar. O anúncio do Evangelho é em si mesmo uma mensagem de alegria. Os discípulos estavam cheios de alegria por terem sido achados dignos de sofrer por Jesus Cristo (cf.At.13,52).

A quarta fonte da alegria é a missão. Todos os que saem em missão experimentam profundas alegrias. É a alegria de fazer o bem, de ajudar os outros, de ser irmão, de colaborar na elevação e promoção da vida e do bem comum. A alegria da missão se fundamenta na alegria da salvação. O missionário é portador da mensagem da salvação, instrumento da graça, benfeitor da humanidade. Eis a alegria da missão, que o Papa chama de “doce e reconfortante alegria da evangelização”. A missão traz alegria, porque transforma os pagãos e os afastados em seguidores e discípulos de Jesus. A missão é o máximo desafio e a máxima alegria. Quanta alegria experimenta o missionário que sai de si e de sua casa, de sua paróquia, de sua diocese, para anunciar o reino de Deus, implantar a Igreja, oferecer a salvação e promover a vida.

A quinta fonte da alegria é o bem. Ser bom e fazer o bem nos cumula de profundas alegria porque fazer o bem e evitar o mal é a regra de ouro da humanidade. Sempre que saímos de nós mesmos e fazemos do outro o centro de nossa vida, entramos no reino da alegria. Não nos roubem a alegria. A prática do bem requer sacrifício, perdão, doação de si na ternura e na dádiva. Isto tudo é fonte inesgotável de alegria.

As bem-aventuranças são expressões concretas do bem, da verdade, e do amor. Os que as praticam são felizes, experimentam a doce alegria da felicidade. O bem é fonte da alegria porque tem como prêmio a ressurreição. “Os que praticam o bem irão para a ressurreição da vida” (cf. Jo 5,29).

Outra fonte da alegria é o perdão. Quanta paz, quanto alegria, quanta consolação experimentamos quando somos perdoados e quando perdoamos. O perdão expulga, apaga, anula todos os sentimentos destrutivos e geradores de amargura, decepção, tristeza e depressão. Quem é perdoado e perdoa pula e dança de alegria, reconquista o gosto de viver, o entusiasmo, a vibração, a energia para fazer o bem. Quem perdoa renasce. Ser nova criatura é uma das maiores alegrias. Recordamos que a perfeita alegria consiste em não perder a serenidade nas adversidades, decepções e injurias. Uma das maiores alegrias é a experiência de nos tornarmos nova criatura, nova criação, com novo jeito de ser, novos critérios, novos sentimentos, novas atitudes.

Bebendo nas fontes da alegria experimentaremos o sabor de viver, nossa saúde se revigora, os ambientes onde vivemos se tornam prazerosos e atraentes, as pessoas sentir-se-ão melhor e mais positivas.

Orlando Brandes

Doenças Curiais

O Papa Francisco, por ocasião do Natal, falou à Curia Romana, manifestando as saudações tradicionais de Boas Festas. Elencou em seu discurso 15 “doenças curiais”, inspirado nos Padres do Deserto que costumavam fazer catálogos ou elencos de questões espirituais. O elenco das doenças vale para a Cúria, para as Congregações, os Presbitérios, as Paróquias, os Movimentos.

Iremos aqui transcrever algumas das doenças curiais que valem para qualquer instituição eclesiástica, como afirma o Papa. Que possamos tirar proveito espiritual da mensagem do Papa Francisco à Curia Romana.

1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou mesmo indispensável. Uma Cúria é uma instituição eclesial que não se auto crítica, não se atualiza, nem procura melhorar, é um corpo enfermo. Uma normal visita ao cemitério poder-nos-ia ajudar a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais talvez pensassem que eram imortais, imunes, indispensáveis. Tal doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo de Édipo”, do narcisismo que se apaixona pela própria imagem e não vê a imagem de Deus no rosto dos outros.

O remédio a esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e dizer com todo o coração: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10).

2. A doença do “martismo” (que vem de Marta), do ativismo excessivo, daqueles que mergulham no trabalho, negligenciando a “melhor parte”: sentar-se os pés de Jesus (cf. Lc. 10, 38-42). Descuidar do descanso leva ao estresse e à agitação.

3. A doença de “empedernimento mental e espiritual, daqueles que possuem um coração de pedra e uma “dura cerviz” (At. 7,51). Estes perdem a serenidade interior, a vivacidade e a ousadia. Escondem-se sob os papeis que representam, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus”. Perdem a sensibilidade humana de chorar com os que choram e de se alegrar com os que estão alegres. Perdem os “sentimentos de Jesus” porque se tornam incapazes de amar incondicionalmente o Pai e o próximo.

4. A doença da planificação excessiva e do funcionalismo, que nos torna contabilistas ou comercialistas. Estes querem pilotar a liberdade do Espírito Santo e caem na acomodação das próprias posições estáticas e inalteradas. Não devemos ter a pretensão de regular nem de domesticar o Espírito Santo, Ele é frescor, criatividade, novidade.

5. A doença do “alzheimer  espiritual”, que é o esquecimento da história da salvação, e do primeiro amor. Sofrem desta doença os que perderam a memória do seu encontro com o Senhor e das maravilhas da graça. Ficam presos ao seu presente, às suas paixões, caprichos e manias. Constroem em torno de si muros, costumes e ídolos que esculpiram com as suas próprias mãos.

6. A doença da rivalidade e da vanglória. O foco da vanglória são as aparências, as cores das vestes, as insígnias que se tornam o objetivo primário da vida. Isso nos torna homens e mulheres falsos e leva a viver um falso misticismo, um falso quietismo. Paulo Apóstolo define estas pessoas como “inimigos da cruz de Cristo” que se gloriam da sua vergonha, porque estão presos às coisas da terra. A vanglória alimenta a rivalidade, a concorrência, o carreirismo. Estas pessoas se alegram com as quedas dos outros e se entristecem com o seu sucesso. Pecam contra o Espírito Santo.

7. A doença da “esquizofrenia existencial”. São os que vivem vida dupla, fruto da hipocrisia típica de quem é medíocre e se encontra num progressivo vazio existencial. A estes nem os doutoramentos nem os títulos acadêmicos podem preencher. Estas pessoas se afastam do serviço pastoral, limitam-se às questões lucrativas, perdem o contato com a realidade. Ensinam uma coisa e vivem outra. Começam a viver uma vida escondida e muitas vezes dissoluta.

8. A doença da bisbilhotice, da murmuração, das críticas. São pessoas semeadoras de cizânia como Satanás que é homicida a sangue frio. Matam a fama dos colegas e confrades. É a doença próprias das pessoas velhacas que não falam na frente, mas, pelas costas. Pessoas azedas, com cara de vinagre e sempre descontentes. Livremo-nos do terrorismo das bisbilhotices.

9. A doença de divinizar os superiores. São os que bajulam, elogiam e procuram agradar a autoridade, aos superiores, para obter vantagens e interesses. São vítimas do carreirismo e do oportunismo. Vivem pensando no que querem obter e não no que devem doar. São pessoas mesquinhas, infelizes, movidas pelo seu egoísmo fatal. O resultado de tudo isso é a cumplicidade, o apego, as segundas intenções.

10. A doença das pessoas rudes e amargas, a doença da cara fúnebre.  Estas pessoas confundem seriedade com severidade, rigidez, dureza e arrogância. São vítimas da melancolia e do pessimismo. Perderam a alegria, o senso de humor, o espírito jubiloso, o entusiasmo e a gentileza.

11. A doença dos círculos fechados. O grupismo começa com boas intenções, mas com o passar do tempo torna-se um cancro que ameaça a harmonia do Corpo de Cristo. Os grupos fechados causam um mal imenso e provocam escândalos porque seus membros se tornam liberais, críticos, independentes e centros de divisão. A pertença ao grupo se torna mais forte que a pertença ao Corpo Eclesial. São grupos promotores da divisão.

12. A doença do acúmulo. O ídolo do bem estar, do dinheiro, do supérfluo atinge a Igreja, tornando-a pesada e passível da corrupção. Nossas casas paroquiais, os carros que adquirimos são tentações do lucro mundano, da exibição, do poder, do mercado. Estas pessoas procuram insaciavelmente multiplicar o seu poder com o desejo de aparecer.

                   Que a graça do Natal possa nos converter.

Dom Orlando Brandes

Campanha da Fraternidade – 2015

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As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, são também as dos discípulos de Cristo. A Campanha da Fraternidade deste ano enfoca a dimensão social da fé. Toca num tema muito sensível e nem sempre acatado. É mais cômodo o cristianismo sacramentalizador e devocional que o profético e social. Jesus, porém, pede que busquemos em primeiro lugar o Reino de Deus. Para responder a João Batista, Jesus deu alguns exemplos de identidade do Reino: os coxos andam, os cegos vêem, os surdos ouvem, os pobres são evangelizados. Eis a relação entre fé e o bem comum.

Desde o Antigo Testamento, Deus se revela como o defensor do órfão, da viúva, do estrangeiro e do pobre. Do céu, Ele se inclina, vê e ouve o clamor do seu povo escravizado no Egito. Então desce, e, por meio de Moisés liberta Israel da escravidão.

Os Dez Mandamentos protegem a vida, a dignidade da pessoa, a liberdade, o direito e a justiça. Deus envia os profetas que em nome da vida, da verdade, do amor defendem os pobres, os excluídos, os marginalizados. Seria muito frutuoso e louvável lermos o profeta Amós, Miqueias, Isaías para constatarmos sua coragem profética enfrentando autoridades políticas, em favor do povo.

Dizia o Papa Bento XVI: “A Igreja é advogada da justiça e defensora do bem comum”. Que digam os cristãos das Comunidades Primitivas onde “não havia necessitados entre êles”. Que digam os Santos Padres, como por exemplo, São João Crisóstomo que escreveu: “Que adianta na mesa do Senhor haver cálices de ouro se lá fora Ele morre de fome na pessoa do pobre? Que digam nossos Santos e Santas que fundaram Congregações Religiosas para cuidar de crianças, doentes, idosos, encarcerados, pobres, migrantes, vítimas de epidemias e estão nos confins da terra em missão. Não podemos esquecer Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Dom Luciano.

Em nossos dias, o Papa Francisco move a Igreja a estar nas periferias, nas fronteiras, entrando na noite do povo pois ela é um “hospital de campanha”, portanto, deve ser “Igreja dos pobres”. É preciso dizer “não” a uma economia de exclusão; “não” à nova idolatria do dinheiro; “não” à desigualdade social que gera violência; “não” ao dinheiro que governa em vez de servir, diz o Papa.

O Concílio Vaticano II abriu ainda mais as portas da justiça e da paz, procurando tornar mais humana a família dos homens e mulheres e sua história. As Conferências de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida debruçaram-se sobre as questões sociais e sobre a colaboração da Igreja na transformação da sociedade. Temos assim uma longa experiência no campo da dimensão social da fé.

Desde 2004 está à disposição de todos o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja” que resume séculos de ensinamento social da Igreja e sua ação no mundo. Mesmo assim, ainda há muita oposição e também desconhecimento da dimensão social da fé. A Campanha da Fraternidade desde ano quer ser mais um avanço na compreensão e aplicação do tesouro social da fé e do Evangelho. Do contrário, corremos o risco de desfigurar o próprio Evangelho e a missão evangelizadora da Igreja. A fé não é cômoda nem individualista, comporta sempre o desejo de mudar o mundo. “Dai-lhes vós mesmos de comer” ( MT 6,37).

A temática desta campanha veio em hora boa, pois os escândalos do mensalão, da Petrobrás, e por outro lado a Reforma Política, o Ano da Paz, o combate à fome nos motivam a aplicar em nossas estruturas a justiça, o direito, a liberdade e o amor. Toda vez que rezamos o Pai Nosso e  meditamos as Bem aventuranças, estamos proclamando o Reino de Deus e confessando a dimensão social da fé.

Estamos nos preparando para as Santas Missões Populares que serão um acontecimento espiritual, pastoral, missionário e social. Tudo está convergindo para um relançamento pastoral da nossa Igreja Particular.

Dom Orlando Brandes

Papa Francisco, e as tentações na Missão.

Uma Igreja em estado permanente de missão encontra muitas tentações pelo caminho. Estas tentações afirma o Papa Francisco estão dentro da Igreja e são as seguintes:

  1. Ideologização da mensagem evangélica. Significa interpretar o Evangelho fora da Bíblia e da Igreja, para defender interesses pessoais ou grupais. Assim, se usa o Evangelho, a Igreja, a religião em favor de si mesmo, do partido político, das vantagens e interesses próprios. A fé se torna meio e instrumento de exclusão, manipulação e exploração do povo. Não falsificar o Evangelho, diz Paulo Apóstolo.
  2. O reducionismo socializante. Consiste em reduzir a Palavra de Deus a partir da ótica puramente social, dependente das ciências sociais. Tanto o liberalismo de mercado como o marxismo são reducionistas. A fé carrega em si mesma a dimensão social, a promoção humana.
  3. A ideologização psicológica. Reduz o encontro com Jesus Cristo a uma dinâmica psicológica do autoconhecimento. Verifica-se isso em cursos de espiritualidade, retiros espirituais onde se fala de um psicologismo auto-referencial sem transcendência e sem missionariedade. O psicologismo nos afasta da missão.
  4. A proposta gnóstica. Costuma ocorrer quando grupos de elite, “católicos iluminados” julgam ter uma espiritualidade superior à dos outros. A partir da razão, do conhecimento racional, confiam mais nos raciocínios que na graça. Estas pessoas se colocam em posição de privilégio, prestígio e superioridade em relação aos demais fiéis.
  5. A proposta pelagiana: busca-se a solução dos problemas apenas na disciplina, no rigorismo, na restauração de condutas já superadas como, por exemplo, o tradicionalismo. Enfoca-se a segurança doutrinal ou disciplinar, procurando buscar o passado perdido. Esta tendência aparece em pequenos grupos e em novas Congregações Religiosas. Há um exagero em vestes, leis, rigorismos, mas, sem mudança interior, principalmente no campo da liturgia. É a volta ao ritualismo.
  6. O funcionalismo. Consiste em apostar na eficácia, na função, na prosperidade do plano e do organograma pastoral. Os sacramentos, a evangelização se transformam em função burocrática, sem conversão, sem interioridade, sem a coerência entre o ser e o fazer. Assim, a Igreja é transformada numa ONG.
  7. O clericalismo. O sacerdote centraliza tudo em sua pessoa e poder pessoal e clericaliza os leigos. Por outro lado, há leigos que procuram a clericalização e para não se incomodar e assumem o que é mais cômodo. Há uma falta de maturidade e de liberdade. A reação ao clericalismo se expressa nas ideologizações, nas pertenças limitadas e parciais. A religiosidade popular, os grupos bíblicos, as comunidades eclesiais de base, os Conselhos Pastorais são tentativas de superação do clericalismo. Em relação aos Conselhos Pastorais ainda estamos atrasados, afirma o Papa.

Peçamos as luzes do Espírito Santo para superarmos estas e outras tentações. Para isso precisamos abrir os olhos do coração para nossa conversão pastoral. A quaresma nos convida à conversão e à fraternidade.

                                                                  Dom Orlando Brandes

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